Depoimentos

Ednei Borges

"A minha motivação veio do gosto pelas coisas do mar e pelo entusiasmo que tinha, desde criança, com relação aos militares e ao mergulho".

Ednei ingressou na Marinha, aos 18 anos, para prestar serviço militar e viu ali, uma forma de concretizar o seu sonho: tornar-se mergulhador. Hoje, segundo ele, “o contato direto com o mar e seus seres faz com que o mergulho se torne uma profissão curiosa e ao mesmo tempo interessante. Esse vínculo direto com a natureza, em sua forma mais primitiva, faz desta atividade a mais fascinante dentre tantas outras”.

Ao falar dos momentos mais marcantes, relata: “ Um dos eventos que marcaram a minha vida profissional, e por que não dizer a minha própria, foi um mergulho que realizei no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Um mergulho espetacular, envolto em grandes algas marinhas, rodeado por barracudas, tartarugas gigantes e até mesmo, para minha grande surpresa e apreensão, um enorme tubarão tigre. Para minha sorte e de meu dupla, hoje Suboficial Mergulhador de Combate Mendes, tudo ocorreu bem. Concluímos a nossa tarefa com perfeição, tendo, como pano de fundo, além do que já relatei, uma visibilidade de mais de 20 metros e a sensação de estar flutuando em um paraíso.”


Luciano Candisani

"A vida no mar é controlada pelos elementos, pela natureza. Gosto dessa sensação, ela me faz ter mais esperança num futuro melhor para os últimos grandes espaços naturais da Terra, lugares onde a natureza ainda dita totalmente o ritimo da vida."

Sou fotógrafo e meu tema é a natureza. Trabalho para revista National Geographic em reportagens que buscam revelar a ligação das espécies - incluindo a humana - com seu habitat natural nos grandes espaços naturais do planeta.

Sempre tive uma forte ligação com a água e foi no mar que dei os primeiros passos no que se tornaria minha profissão, em 1985. Na época, influenciado pelas fotografias da National Geographic e pelos filmes de Jacques Cousteau, tirei uma licença de mergulho, consegui uma câmera anfíbia e comecei a registrar o fundo do mar entre Ilhabela e Angra dos Reis.

Mais tarde entrei na faculdade de biologia, na Universidade de São Paulo, e fui trabalhar no Instituto Oceanográfico, como estagiário. Ali, tive as primeiras chances de ingressar profissionalmente na fotografia, pois os laboratórios precisavam de fotografias submarinas e eu já sabia como fazer.

Virei um fotógrafo de expedições científicas. E isso me levou, em 1995, à minha primeira viagem a Antártica a bordo do navio de apoio oceanográfico “Ary Rangel”, da Marinha do Brasil. Fiquei 3 meses fotografando a vida submarina na Baía do Almirantado. Esse trabalho, inédito na época, rendeu as primeiras publicações importantes e abriu o caminho que me trouxe até a National Geographic.

Na memória, guardo muitos momentos marcantes das minhas viagens pelos oceanos: na ilha de Trindade, vi o “raio verde” descrito por Julio Verne, numa manhã quando saia da barraca, na praia das tartarugas. Na Patagônia, mergulhei nas florestas de algas gigantes, com mais de 15 metros e na Antártica mergulhei sob o mar congelado. Em Galápagos, mergulhei com as criaturas que inspiram Darwin e nas Filipinas convivi com populações que tiram totalmente o sustento do fundo do mar. Mas, talvez, a experiência no Atol das Rocas tenha sido a mais intensa. Essa ilha, isolada no Atlântico, é um desses raros lugares onde a vida humana ainda é totalmente regida pelos elementos. Não tem água doce e as caminhadas dependem do horário da maré. Banhos, só de mar, e toda a energia vem de um painel solar. Não há estrutura alguma para o ser humano que represente impacto negativo ao ambiente. É uma sensação muito boa.

Lugares assim, como o Atol, ensinam que é fundamental a nossa mudança de comportamento em relação ao mar e a natureza em geral. Precisamos aceitar que nosso modelo de produção e consumo tem que levar em consideração os limites impostos pelo ambiente. Os oceanos abrigam boa parte da diversidade de vida do Planeta, essa é a grande riqueza imersa em suas águas.


Ernesto Paglia

"Quem vive ou trabalha nesses pontos distantes do mapa pode se considerar embaixador do Brasil. São essas pessoas que nos representam. São elas o Brasil no meio do Atlântico, nossa garantia de que as águas à nossa volta continuem a ser extensão natural do nosso País."

Nasci no Planalto Paulista, longe o suficiente do mar para tornar cada encontro com ele mais importante. Talvez quem vê diariamente, ao abrir a janela para dar bom dia, tenha com ele uma relação mais sem cerimônia. Mas eu faço parte do grupo de pessoas que enxergam cada onda com respeito e curiosidade. O que haverá além daquelas pedras na barra? O que se esconde por trás daquela linha onde os azuis do céu e do oceano se encontram?

Cresci e me tornei jornalista. E a profissão que já me deu tantas alegrias levou-me a bordo da maior de todas as expedições marítimas que a TV brasileira já realizou, o Globo Mar. A esta altura, já são quatro anos de navegações, principalmente por águas nacionais. E tenho a alegria de constatar nas ruas que nossas câmeras se transformaram numa janelas para o Brasil olhar cada vez mais para o azul que nos abraça. Os telespectadores comentam, perguntam, pedem sempre mais informações. O brasileiro já não se contenta com ir a praia. Também quer como eu, descobrir o que há alem da linha de arrebentação.

Minha relação mais, desculpem o trocadilho inevitável, profunda com o mar nasceu em 1985. Foi quando fiz meu primeiro curso de mergulho. A finalidade era, realizar uma reportagem. Fomos realizar um dos primeiro documentários do Globo Repórter sobre o arquipélago de Fernando de Noronha. Depois disso, tive a oportunidade de navegar e mergulhar pelo mundo afora. O mais importante, pude conhecer as nossas cinco ilhas oceânicas, com suas belezas, dificuldades e heróis. Brasileiros que trabalham nesses lugares remotos, cercados pela natureza e dedicados à pesquisa, à defesa ou, simplesmente, a tocar suas vidas em alguns dos trechos mais interessantes e belos de nosso País.

O mar pode guardar imensos tesouros, conhecidos ou por descobrir. Ele nos dar acesso ao mundo, ele serve de moldura espetacular para nossa costa. Mais do que isso tudo, ele é a continuação de nosso território. E cuidar de casa é a nossa obrigação. Quem é dono tem mais responsabilidades. E deve conhecer, cuidar, preservar.

Só assim nossos descendentes poderão desfrutar de um futuro pleno. O dever de preservar vem junto com a magnífica herança que recebemos e passamos a diante.