Em 1729 foram construídas algumas oficinas e telheiros em frente ao Palácio do Governador e Capitão General do Estado do Maranhão e Gran Pará; as oficinas destinadas a construção e reparos das canoas de guerra e os telheiros para armazenar as munições de ante carga dos canhões. Este conjunto era conhecido na época pelo nome de "Casa das Canoas". Sendo o Pará, devido a sua posição Geográfica - desembocadura do Rio Amazonas, porta de acesso a um interior riquíssimo, foi, pôr vezes, alvo de tentativas de invasões piratas, obrigando os então defensores de nossa terra a estabelecerem o seu dispositivo de defesa. Este dispositivo de defesa repassava fundamentalmente na ação das canoas de guerra, que seria tanto mais efetiva quanto maior fosse a capacidade das oficinas para os pontos reparos de que as canoas necessitassem.

Em 1761, para melhor atender às suas finalidades, as oficinas das casas das canoas foram transferidas para o Convento S. Boaventura, onde é hoje uma dependência da sede do Comando do 4º Distrito Naval, passando-se a chamar de Arsenal de Marinha do Pará e com atribuições mais amplas, entre elas a construção de navios de guerra de maior porte para operarem em mar aberto. Assim é que, no período áureo de sua existência, entre outras embarcações, construiu uma nau armada com 74 canhões, 5 fragatas de 44 canhões, 4 charruas e 12 calupas artilheiras. Entre as fragatas construídas, uma - a "Imperatriz" - serviu gloriosamente no Rio da Prata, onde sustentou e repeliu vitoriosamente a abordagem de 11 navios inimigos.

Daí em diante o Arsenal de Marinha do Pará limitou-se apenas a fazer reparos nos navios de guerra, os quais, posteriormente, vieram a constituir a Flotilha do Amazonas. A experiência consequente do 1º conflito mundial induziu o Estado Maior da Armada (EMA) a estudar e planejar a defesa da costa brasileira e das suas linhas de comunicações marítimas em moldes mais adequados à evolução da guerra moderna no mar.

Em decorrência daqueles estudos foi constatada a necessidade de instalações de Bases Navais ao longo do litoral brasileiro. Entre elas estava uma na costa paraense, e em 07/07/1922, um Decreto do Presidente da República a criava. Somente 8 anos depois, em 1930, é que foi dado início aos estudos da localização da Base Naval do Pará, sendo escolhido o porto de Belém, prevalecendo na seleção, aquelas mesmas razões que convenceram o Governador ALEXANDRE SOUZA FREIRE a construir a "CASA DAS CANOAS" em 1729, isto é, a posição estratégica e geográfica da cidade favorabilíssima ao apoio de uma Força Naval incumbida da defesa do litoral norte do Brasil e da Bacia Amazônica.

A situação econômico-financeira do país, agravada pelas consequências da revolução de 1930, tornou impossível a execução imediata da instalação dessa Base. Por volta de 1940, florescia o Serviço de Navegacão na Amazônia e Administração do Porto do Pará (SNAPP), autarquia fundada no Estado Novo pela encampação da Port of Pará. Dispondo de recursos substanciais, o SNAPP modernizou suas oficinas e iniciou as escavações de um dique seco em Val-de-Cães. Em 1941 com o mundo já conflito, o EMA, considerando o constante desenvolvimento do SNAPP e os navios de que dispunha para eventual apoio aos navios da Marinha do Brasil (MB), reestudou o assunto da instalação da Base Naval de Belém. Em consequência deste reestudo, propôs ao Ministério da Marinha (MM) a extinção do Arsenal de Marinha do Pará e transferência do seu acervo para o SNAPP. A entrada do Brasil na guerra e as suas implicações para a Marinha, protelaram a solução da proposta.

E precisamente porque, já então se constatava a relevância de uma Base Naval autêntica, sediada em Belém, para apoio de operações navais no norte do Brasil, o MM, não concordando com a proposta do EMA, baixou o Aviso 0830, de 23/03/1948 determinando providências para o planejamento da Base Naval de Val-de-Cães, com a recomendação de que se fizesse com visão larga e confiança no futuro do Brasil.

Complementando essa medida, pleiteou do Governo e conseguiu, invocando as razões de defesa nacional, plenamente justificadas, durante o período da última guerra, a transferência da área do SNAPP destinando-a à Base, com o acervo nela existente, incluindo o dique em construção. Em consequência , foi elaborado um Plano de Obras (chamado plano primitivo da Base). Quando concluídas as construções previstas nesse plano, a Base ocuparia uma área de 4.506.000m2 e nela existiriam 28.000 pessoas.

Estaria em condições de oferecer apoio logístico a uma Força Naval composta de 4 unidades de 12 mil toneladas, 6 unidades de 3 mil toneladas e 10 unidades fluviais de 1.000 toneladas permitindo a sua atracação em um cais de 700 metros e em pies com 645 metros totais. Evidentemente que era um plano por demais audacioso e de custos elevadíssimo na época (1948) orçado em 2,5 bilhões de cruzeiros - mas sem dúvida, de acordo com a recomendação ministerial - com visão larga e confiança no Brasil.

Em 05 de maio de 1950, através o Aviso n º 968 do Ministro da Marinha, publicado no Boletim do Ministério da Marinha nº 19 de 1950, foi oficialmente criada a Base Naval de Val-de-Cães em 25 de julho de 1949, data em que foi empossado o primeiro Comandante da Base, tendo sido concluído em 23 de dezembro de 1949 os trabalhos de transferência para a Marinha dos terrenos cedidos pelo SNAPP e a mudança das oficinas do Arsenal de Marinha do Pará para àqueles terrenos.

Em maio de 1955, o EMA, para ajustar-se à realidade da conjuntura econômico-financeira do País e com ela conciliar a responsabilidade da MB quanto ao desenvolvimento dos Estabelecimentos de Apoio às Forças Armadas ao longo do litoral, estabeleceu uma diretiva a ser seguida em relação às Bases Navais baseada na missão atribuída a cada uma delas. Essa diretiva foi consubstanciada em um Plano Diretor da construção da Base Naval de Val-de-Cães, onde, mantendo-se a missão do plano inicial, atribuía-se, porém, prioridade às obras para a sua consecução, mas sem limite de tempo.