.....O prédio que atualmente abriga a sede do Tribunal
Marítimo pertencia, inicialmente, a José Maxwell e filhos que em 1851 solicitaram
licença para construção de um trapiche; uma vez construído, alugaram-no à firma
Wilson Sons & Cia por mais de 35 anos, constituindo-se no último locatário a
ocupar o imóvel antes da compra pelo Governo Federal.
.....Através de escrituras de compra e venda lavradas
em 1877, 1879 e 1889, os herdeiros da família Maxwell Rudge venderam o imóvel de
forma fracionada à Fazenda Nacional, que à época constituía-se num prédio de dois
pavimentos com uma área de 697,20 m² e localizado na Praça Sérvulo Dourado nº 2.
.....De 17 de maio de 1894 ao ano de 1915, o andar
térreo abrigou o armazém nº 15 da Alfândega e ainda naquele período, parte da mesma
edificação dividia o espaço com a Mesa de Rendas da Província do Rio de Janeiro.
.....A partir de 1915 aquelas instalações passaram
a abrigar o Lloyde Brasileiro que lá permaneceu até 1921, motivado pela transferência
da Comissão de Liquidação de Contas do Lloyd.
.....O ano de 1921 marcaria a posse do prédio pelo
Ministério da Marinha, que logo no ano seguinte contrataria os serviços do engenheiro
Américo Brasil Donnici, para realizar obras de restauração e adaptação. Em 1922,
a então Inspetoria de Portos e Costas, depois Diretoria de Portos e Costas, lá instalou-se
com suas organizações subordinadas ou vinculadas como: Capitania dos Portos do Rio
de Janeiro, Reserva Naval, Diretoria de Pesca (com o Museu da Pesca ocupando um
salão do prédio), Confederação Geral dos Pescadores e Crédito Marítimo. Durante
o ano de 1925, esteve instalada no imóvel a Sociedade Brasileira de Piscicultura
e Oceanografia.
.....O Decreto nº 20.829 de 21 de dezembro de 1931
ao criar a Diretoria de Marinha Mercante, em substituição a Diretoria de Portos
e Costas, determinou em seu art. 5º a criação dos chamados Tribunais Marítimos Administrativos,
que ficariam subordinados àquela Diretoria. Nunca, porém, foram ativados outros
Tribunais no Brasil, sendo que a legislação atual prevê somente a existência de
um único Tribunal Marítimo. Com a transferência do controle da Pesca para o Ministério
da Agricultura, no ano de 1934, as organizações ligadas àquela atividade deixaram
o prédio e naquele ano se instalava o primeiro Tribunal Marítimo ativado, no Distrito
Federal (Rio de Janeiro).
.....Em 1941 foi construída uma Casa Forte para o Tribunal
Marítimo, destinada a guarda do arquivo de processos e documentações diversas.
.....A Capitania dos Portos do Distrito Federal e Estado
do Rio de Janeiro transferiu-se das instalações da Praça Sérvulo Dourado, nº 2,
no decorrer de 1947, que foram reformadas para melhor atender ao funcionamento do
Tribunal Marítimo do Distrito Federal. Em decorrência de modificações urbanas no
Centro da cidade do Rio de Janeiro, o endereço do Tribunal Marítimo passou a ser
considerado como Av. Alfred Agache s/nº.
.....Entre os anos de 1983 e 1985 ocorreu uma grande
obra de ampliação, num total de 500 m², quando foram construídas, inicialmente,
duas lajes. Uma delas hoje abriga o lado esquerdo do 2º andar e a outra, que atualmente
constitui o 4º andar. A citada obra, que aumentou consideravelmente o espaço útil
do Tribunal Marítimo, foi concluída com a instalação de um elevador auxiliar, atendendo
à nova configuração do prédio, atualmente com 4 andares.
......O incidente com o Paquete alemão
BADEN,
ocorrido em 24 de outubro de 1930, quando deixava o porto da Cidade do Rio de Janeiro,
foi um acontecimento marcante da época, sendo amplamente coberto pela imprensa escrita
carioca. O navio, ao cruzar a saída da barra do Rio de Janeiro, não obedeceu à sinalização
emanada pela Fortaleza de Santa Cruz com ordem para parar. O que levou o Forte do
Vigia (atual Fortaleza Duque de Caxias, também conhecida como Forte do Leme) a atirar
contra o
BADEN, atingindo o paquete alemão, deixando mortos e feridos dentre
seus tripulantes .Um dos mais importantes periódicos da época assim noticiou o incidente:
"O Cargueiro alemão BADEN tentou forçar a barra.
Ao anoitecer quase, o cargueiro alemão Baden, tentando forçar a
saída da barra, foi admoestado pela fortaleza de Santa Cruz, com dois tiros
de pólvora seca."
Não obedecendo a intimação prosseguiu viagem, aumentando a
velocidade, quando do forte de Copacabana foi o cargueiro atingido por
um tiro cuja bala o alcançou, produzindo grandes avarias e fazendo 15 vítimas."
"O BADEN Retrocedeu ao porto, indo a bordo as autoridades incumbidas das providências
precisas."
“As 15 vítimas, cujos os nomes não obtivemos, foram mandadas para o necrotério.
......Após o incidente, que foi
“objeto de comentário
do público e da imprensa”, a Legação da Alemanha no Rio de Janeiro determinou que
fosse feita uma investigação por uma comissão a bordo do navio. E comunicou-se com
as autoridades brasileiras competentes, que asseguraram já terem tomado as devidas
providências para que se esclarecesse o caso o mais rápido possível. Como também
havia passageiros espanhóis entre os vitimados pelo incidente, o Governo de Madri,
por meio de seu corpo diplomático no Rio de Janeiro, providenciou que os cidadãos
espanhóis feridos obtivessem os cuidados médicos necessários.
......Quatro dias após o incidente, Alemanha e Espanha
começaram a pressionar o Brasil para que as investigações fossem feitas com o máximo
de cuidado e rapidez possível, a fim de descobrir os responsáveis. Na Alemanha,
esperava-se pelo resultado do inquérito feito pela polícia portuária do Rio de Janeiro,
porém o periódico alemão Berliner Armittag admitiu que houve falta do comandante
do navio, o Capitão Rolin, que havia desobedecido às ordens da fortaleza. Mesmo
assim, o governo alemão não retirou a responsabilidade do Governo brasileiro, tanto
que o então Ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mello Franco, recebeu um
protesto do Reich alemão pelo incidente. Como resposta, o Ministro exprimiu
pesar pelo acontecido e garantiu que, tão logo o inquérito oficial para apurar as
responsabilidades pelo desastre fosse concluído, transmitiria nova comunicação ao
governo alemão.
......O julgamento do caso BADEN ocorreu em
sessão da Corte do Almirantado da Alemanha, em janeiro de 1931, na Cidade de Hamburgo.
Através dos relatos das testemunhas, várias conclusões puderam ser tiradas. Questionado
pelo Tribunal se havia visto os sinais içados pela Fortaleza de Santa Cruz, que
seriam “GRK”, cujo significado era “não é permitido prosseguir”, o Capitão Rolin,
comandante do BADEN, afirmou que havia visto, porém, não sabia o significado
daquela sinalização içada pela fortaleza. Durante o julgamento, o Capitão alegou
que o forte não estava utilizando a sinalização internacional e, sim, a nacional,
e que, além disso, a sinalização usada era para embarcações pequenas e não para
transatlânticos, como era o caso do BADEN. De acordo com dois passageiros
espanhóis do BADEN, o navio navegava em alta velocidade e constantemente
mudando de proa (ziguezagueando). Porém, quando as testemunhas foram perguntadas
se a bandeira internacional havia sido içada por fortes na barra do Rio de Janeiro,
todas responderam que não.
O presidente do Tribunal Marítimo alemão, após examinar as provas e os relatos das
testemunhas, chegou à conclusão de que as autoridades brasileiras não teriam cumprido
as exigências internacionais, não garantindo a passagem segura da embarcação como
deveria ser feito em tempos de paz. Apesar de não negar o direito do governo brasileiro
de abrir fogo contra navios que não obedecem às regras, o Tribunal alemão entendia
que as guarnições das fortalezas da barra deveriam ter feito a advertência pelo
rádio. Conforme divulgou a imprensa da época, o veredicto final foi:
- 1. Em primeiro lugar, a responsabilidade maior do incidente foi atribuída à guarnição
da Fortaleza de Santa Cruz, que não havia feito o uso da sinalização internacional,
o que provocou o fogo do Forte do Vigia. Também a guarnição do Forte do Vigia era
acusada de ter atirado diretamente contra o navio, quando o correto seria proceder
disparos de advertência a uma distância de 200 metros da embarcação.
- 2. Em segundo, lugar o Tribunal repreendeu o Capitão Rolin por não ter tomado
precauções ao deixar o porto e parado o navio quando recebeu uma comunicação que
não compreendia. Mesmo com o veredito, o caso Paquete BADEN permaneceu com
algumas controvérsias. Uma delas, foi o fato de o Capitão Rolin atribuir o bombardeamento
do navio à alegada falsa acusação de que teria embarcado secretamente um político
brasileiro deposto pela Revolução de 1930. Mesmo após o veredito, o comandante do
BADEN continuaria a insistir nessa afirmação. Outro ponto confuso na investigação
do BADEN são os testemunhos dados por um carpinteiro e dois marinheiros do
navio alemão, que afirmavam ter visto as colunas de água levantadas pela explosão
de granadas de artilharia antes do BADEN ser atingido, o que caracterizaria
disparos de advertência. Tais controvérsias, não exploradas na investigação, não
alteraram o veredicto do Tribunal Marítimo alemão.