Com uma percepção
nítida do problema, era necessário iniciar o processo
de formação da Marinha Imperial. Essa tarefa caiu
sobre os ombros do novo Ministro da Marinha, o Capitão-de-Mar-e-Guerra
Luís da Cunha Moreira. Um dos poucos brasileiros que
pertencera à Marinha portuguesa. Sua experiência
se fundamenta em sua participação durante todas
as Guerras Napoleônicas e seu importante desempenho na
captura anglo-lusitana de Caiena em 1808.
No porto do Rio de Janeiro, encontravam-se alguns navios da
Armada portuguesa que haviam caído sob o controle do
Governo Imperial brasileiro. Eram seis naus, três fragatas,
duas corvetas e três brigues, porém, dentre as
naus, principal navio de linha da época, somente a Martins
de Freitas estava em boas condições. A Príncipe
Real estava desarmada e as outras eram irreparáveis.
Mas, com a ajuda de uma subscrição nacional, o
apoio dos marinheiros brasileiros e de muitos portugueses, que
se tornaram brasileiros por adoção, criou-se a
Esquadra Nacional, composta pela Nau Pedro I, três fragatas,
duas corvetas e cinco brigues. O Brasil conseguiu constituir
uma Força Naval respeitável, em condições
de fazer frente aos portugueses.
Os movimentos a
favor da libertação política do Brasil
se desenrolavam também no exterior. Em Londres, encontrava-se
o General Felisberto Caldeira Brant Pontes, aliado do partido
patriótico e amigo de José Bonifácio. Tornou-se,
para o novo Governo brasileiro, um agente digno de confiança
e capaz de comprar armas, levantar empréstimos, coordenar
o recrutamento de estrangeiros e dar imediato aviso do que ocorresse
em Portugal. O General Caldeira Brant tinha opiniões
firmes e esclarecidas sobre os problemas de estratégia
militar, sua passagem pela Real Academia Naval, em Portugal,
o levou a adquirir plena consciência da importância
do poderio marítimo. A necessidade de uma Armada Imperial
que merecesse confiança constituiu um tema ao qual se
reportava com freqüência em suas correspondências
com o amigo e Ministro José Bonifácio.
Foi
convidado pelo Governo brasileiro para comandar a recém-criada
Armada brasileira, o Almirante inglês Lord Alexander Thomas
Cochrane, o qual trouxe consigo mais quatro oficiais britânicos,
dentre os quais João Pascoe Grenfell, que se destacou
por prestar imensos e inestimáveis serviços à
nossa Pátria.
O Almirante Cochrane assumiu o Comando-em-Chefe da Esquadra
Imperial em 21 de março de 1823, quando içou,
no mastro da Nau Pedro I, o seu pavilhão de 1º Almirante
da Marinha do Brasil. A 1º de abril, partiu do Rio de Janeiro
com destino a Salvador levando as ordens do Ministro Cunha Moreira,
para que estabelecesse um rigoroso bloqueio, destruindo e tomando
todas as forças portuguesas que encontrasse, fazendo
o maior dano possível ao inimigo.
O início
do bloqueio ao porto de Salvador foi retardado em virtude da
vinda de uma Esquadra portuguesa para reforçar a resistência
do General Madeira de Mello, comandante das tropas portuguesas
estacionadas na Bahia. Ao amanhecer do dia 4 de maio de 1823,
as duas esquadras se avistaram em alto-mar e imediatamente a
capitânia brasileira desfraldou no mastro do traquete
o sinal de Preparar para o combate! Porém, por volta
das sete horas da noite baixara um violento temporal impedindo
a continuidade do combate, fazendo com que os navios portugueses
se recolhessem ao porto de Salvador.
A manutenção do bloqueio ao porto de Salvador
foi uma tarefa rude e gloriosa porque inúmeras embarcações
tentavam forçar o bloqueio e conseqüentemente eram
aprisionadas. Além desse bloqueio, as forças portuguesas
sofriam o ataque contínuo dos patriotas baianos do Recôncavo
e da ilha de Itaparica na reação contra a resistência
do General Madeira de Mello. Desesperançado de qualquer
reforço, lutando com dificuldades insuperáveis
para abastecimentos, resolveu, a 2 de julho de 1823, abandonar
o Brasil embarcando nos navios portugueses e seguir rumo à
pátria. Essa fuga foi a primeira grande demonstração
do valor da Marinha na independência.
O Capitão-de-Fragata
John Taylor, um dos oficiais ingleses que acompanharam o Almirante
Cochrane, comandando a Fragata Niterói, recebeu a incumbência
de perseguir até as costas da Europa a fugitiva, mas,
ainda assim, poderosa esquadra portuguesa, composta de 86 navios,
de guerra e onerários, só regressando a 9 de novembro
de 1823.
Depois de sua atuação na Bahia, o Almirante Cochrane,
com sua famosa capitânia, a Nau Pedro I, apresentou-se
na barra do porto de São Luís em 26 de julho de
1823. Fazendo supor que atrás de si, pronta a apoiá-lo,
se aproximavam poderosas forças de mar e terra, conseguiu
com que dois dias depois o Maranhão já aderisse
oficialmente à Independência e ao Império.
Após pacificar e integrar o Maranhão, o Almirante
Cochrane enviou à Província do Pará o Capitão-Tenente
João Pascoe Grenfell, com o Brigue Maranhão, que
chegou à barra de Belém no dia 10 de agosto. Após
proceder de modo semelhante ao que se realizou no Maranhão,
a Junta Governativa reconheceu, em sessão solene, a Independência
no dia 15 de agosto.
Os portugueses em Montevidéu continuavam
a resistir aos interesses do Governo Imperial brasileiro durante
1823. Sofriam um rigoroso bloqueio desde 15 de março,
e em meados do ano, as vitórias da Marinha Imperial no
Norte do país permitiram que fosse reforçada a
flotilha brasileira no Sul. O auge da resistência portuguesa
se deu a 21 de outubro, quando navios tremulando a bandeira
lusitana, sob o comando de D. Álvaro da Costa, saíram
do porto de Montevidéu em ordem de batalha. Seguiu-se
um violento combate onde os brasileiros mantiveram-se firmes,
comandados pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Antônio
Nunes, o que forçou os portugueses a abandonarem a luta
e retirarem-se para Montevidéu. A futilidade em prosseguir
a resistência estava clara, por isso foram iniciadas as
negociações para a rendição portuguesa,
o que veio a ocorrer em 18 de novembro de 1823.
No dia 9 de novembro, o Almirante Cochrane tinha chegado ao
Rio de Janeiro, onde recebeu, entre outras homenagens e honrarias,
o título de Marquês do Maranhão. Escreveu
seu nome nos livros de história como um dos maiores nomes
da Pátria, no período de nossa Independência;
um vulto de legenda dentro da Marinha brasileira, Primeiro Almirante
da Imperial Marinha do Brasil, merece juntar-se aos insignes
vultos da nossa Independência Política.
Sob seu comando,
a Marinha Imperial assegurou o contato entre os núcleos
dispersos da população, varreu dos mares as esquadras
hostis e, através da ligação entre os centros
mais desenvolvidos, propiciou a conjugação dos
esforços que nos conduziram à condição
de país livre. E mais importante que as ações
militares propriamente ditas foi a simples presença das
Forças Navais do Império nas províncias
do Norte. Tanto que por volta de 1824 todas as tropas portuguesas
já se encontravam fora do território brasileiro,
e, em 1825, a Independência do Brasil foi reconhecida
por Portugal e pelo mundo.
A extraordinária
habilidade dos homens que comandaram e tripularam os navios
da Esquadra brasileira fez com que essas ações
iniciais de combate direto fossem seguidas por patrulhas eficientes
que asseguravam o completo domínio do mar para o Brasil
e, com isto, evitavam qualquer possibilidade de reforço
de tropas portuguesas para o território brasileiro. O
alto grau de eficiência de nossos navios foi sentido,
também nas negociações de paz, cujas condições
preliminares iniciais dos portugueses eram de que cessássemos
nossas ações navais. Ou seja, a Marinha de Guerra
mostrou-se definitivamente como um fator decisivo para a consolidação
da Independência do Brasil.
FONTES
BIBLIOGRÁFICAS:
BRASIL,
Serviço de Documentação da Marinha. História
Naval Brasileira. Terceiro Volume, Tomo I. Rio de Janeiro: SDM,
2002.
CAMINHA, João Carlos Gonçalves. Formação
da Marinha Imperial. In Navigator, nº 10, Dez/1974, pp
5-28.
MAIA, João do Prado Maia. A Marinha de Guerra do Brasil
na Colônia e no Império. Rio de Janeiro: Livraria
Editora Cátedra, Brasília: Instituto Nacional
do Livro, 1975.
VALE, Brian. Estratégia, Poder Marítimo e a Criação
da Marinha do Brasil 1822-23. In Navigator, nº 4, Dez/1971,
pp 5-21.
Serviço
de Relações Públicas da Marinha