RIO - Construído para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Estádio Olímpico João Havelange sediou as principais provas de atletismo e passou com louvor pelo crivo da organização. Ao fim da competição, a instalação foi arrendada por 30 anos pelo Botafogo e a pista de atletismo permaneceu inutilizada durante todo o ano passado. Em 2009, voltou a ser usada em apenas duas ocasiões: Troféu Brasil de Atletismo e o GP Internacional. Um dos projetos previa que os aparelhos custeados pelo Ministério do Esporte ficassem no estádio para atender projetos sociais previstos desde a inauguração do estádio. Mas o equipamento não ficou no Engenhão e a pista continua sem uso desde o último dia 7 de junho.
– Não temos condições de montar uma equipe de atletismo sem auxílio de um forte patrocinador. Existem custos de manutenção. Não é uma tarefa simples – afirmou Miguel Angelo da Luz, coordenador de esportes olímpicos do Engenhão. – Existia a possibilidade de os aparelhos ficarem aqui. Mas não ficaram.
O Botafogo gasta cerca de R$ 400 mil por mês com a manutenção do Engenhão. Segundo o clube, o estádio dá prejuízo – o ganho com jogos não paga o custo.
Custeados pelos Ministério do Esporte na época do Pan, os aparelhos foram importados e fizeram parte de um dos dois primeiros convênio de investimentos, que totalizaram R$ 11,5 milhões distribuídos num primeiro momento entre 24 modalidades. Para a Confederação Brasileira de Atletismo, 90 dardos, 85 varas e 200 barreiras foram trazidos.
– Existem dois grupos de material. Um com colchões, barreiras, que está no Célio de Barros, e outro, com dardos e varas que foram encaminhados para atletas espalhados pelo país – afirmou o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Roberto Gesta.
O Célio de Barros é o principal local de treinamentos dos atletas cariocas e palco tradicional do atletismo na cidade. Mesmo com melhores instalações, Gesta aponta os motivos para o Engenhão sediar apenas competições e não se transformar em centro de excelência.
– O Célio de Barros é mais acessível para os atletas e o Engenhão possui um custo muito grande de manutenção, equiparado ao de grandes estádios da Europa– assegurou Gesta. – Por isso é mais utilizado em competições.
Projeto social à espera
Com reuniões feitas periodicamente, Botafogo, confederação e ministério estão prestes a tirar do papel um projeto social. Alunos da 3ª CRE, crianças moradoras do entorno do Engenhão, terão escolinhas de atletismo, luta olímpica e tênis de mesa. O projeto já está pronto e será patrocinado pelo governo federal. Mas a data de inauguração está longe de ser decidida.
– Só falta assinar – disse Miguel. – Os custos serão arcados pelo ministério.
Com a demolição do Célio de Barros tão logo saia a licitação do Maracanã e se iniciem as obras do complexo visando à Copa 2014, o Engenhão seria o principal candidato a receber os aparelhos do Célio. Certo? Errado.
– O Engenhão só viraria um centro de treinamento caso os custos fossem menores. Infelizmente, até o campo auxiliar é utilizado pelo time de futebol – cutucou Gesta.
Os equipamentos do Célio de Barros já possuem destino e não são o Engenhão. Vilas Olímpicas e novos possíveis locais de treinamentos serão contemplados. Mas, caso haja um projeto no Estádio Olímpico, o local não será esquecido. Mesmo em virtude dos altos custos.
– O Brasil para se tornar potência olímpica tem que importar de vários centros. De fato, alguns materiais realmente são relativamente caros, como um dardo de longo alcance. Mas temos centros em Manaus, Fortaleza, Belém e São Paulo bem equipados – frisou Gesta.
A esperança é que o Rio-2016 traga investidores e parceiros para aumentar a rede de descobridores de talentos e a formação de novos centros de treinamento – e para que atletas campeãs mundiais como Bárbara Leôncio não precisem treinar em pistas improvisadas.
– Vamos conversar com o presidente e estamos abertas a recebê-la – afirmou Miguel Ângelo da Luz.
Marinha deve herdar CT previsto no estádio
Com o fim do Célio de Barros e o não aproveitamento do Engenhão como centro de treinamentos, um forte candidato aparece como herdeiro do Estádio Olímpico. A Marinha entrou em contato com a CBAt e se mostrou disposta a firmar uma parceira para receber instalações e atletas tão logo a cidade fique orfã de um dos seus templos do atletismo – o Célio de Barros será demolido com a remodelação do complexo do Maracanã. O local é o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes, situado na Avenida Brasil, uma das sedes do Jogos Mundiais Militares de 2011.
– A Marinha fez uma proposta e gostamos do projeto. Tivemos um encontro bastante proveitoso – afirmou Roberto Gesta, da CBAt.
O local terá alojamentos e pista remodelados e receberá equipamentos de primeiro mundo. A tendência é que, após os Jogos, o local vire mais um centro de excelência. Hoje, apenas Fortaleza e Bragança Paulista, utilizado pelo Grupo Rede – o mesmo protagonista do escândalo por doping – são considerados de ponta pela CBAt.
– Com o Cefan, pretendemos produzir velocistas e barreiristas como Robson Caetano, por exemplo – afirmou Gesta.
Até 2016, o desejo é criar pelos menos mais sete centros. Para isso a confederação terá de importar equipamentos e técnicos. O terceiro projeto está em andamento e a previsão é que, até o fim do ano, um centro de excelência em Uberlândia, interior de Minas Gerais, seja inaugurado.
– Fizemos reuniões com atletas, técnicos e ex-atletas com experiência internacional. Temos que ouvir o lado do atletas e pegar o que eles viram de bom por onde passaram – explicou Gesta.
O centro em Uberlândia será capitaneado por Luiz Alberto de Oliveira, o mesmo treinador que revelou Joaquim Cruz, medalha de ouro nos Jogos de Los Angeles-1984. Além de Luiz Alberto, outros cinco treinadores cubanos serão trazidos para aumentar a troca de métodos entre os técnicos.
– Queremos trazer mais treinadores para aumentar o programa. Luiz Alberto de Oliveira vai cuidar dos velocistas prolongados e meio fundo – revelou Gesta. – Esperamos colocar o pessoal do arremesso de disco e de dardo lá também.
Doação
Mas não basta apenas investir em atletas já formados. A comissão prevê a entrega de cinco corredores para salto em distância, instalados em cinco pontos diferentes do Rio, para trabalho de iniciação no esporte. O objetivo é incentivar a prática nas crianças, já que a maioria dos colégios municipais não dispõe de locais apropriados.
– Conversei com Eduardo Paes e a prefeitura escolherá os pontos em que os corredores serão instalados. É certo que serão beneficiadas áreas carentes do município – concluiu Gesta.
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