Você está aqui:  CGCFN -> Comunicação Social -> Destaques ->
 
             04/12
            Site Comunidade Segura
             03h08
             Um jeitinho brasileiro de fazer paz
 

Fotos: Marina Lemle
Escola de Operações de Paz do Corpo de Fuzileiros Navais, na Ilha do governador (RJ)
 

     A cordialidade típica do brasileiro, descrita em 1936 por Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, está se provando eficaz também acima da linha do Equador, no processo de pacificação do Haiti. A maciça presença brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) está fazendo diferença.
     É o que garantem militares e civis que já atuaram no país e participaram do 1o Seminário de Operações de Paz, em 16 e 17 de novembro na Escola de Operações de Paz do Corpo de Fuzileiros Navais, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. O seminário foi promovido pelo programa Pró-Defesa, uma parceria entre a Marinha do Brasil, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio) e a Universidade de Brasília (UnB).
     “O brasileiro é avesso ao formalismo e transita bem entre a inimizade e a amizade. É o próprio ‘homem cordial’”, definiu o Capitão de Mar e Guerra Renato Rangel Ferreira, que comandou tropas de fuzileiros navais no Haiti e explicou algumas estratégias de ação dos fuzileiros navais em operações de paz.
     Diversos palestrantes destacaram a cordialidade dos brasileiros como fator fundamental para o sucesso das ações. O embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman, e sua esposa, a embaixatriz Roseana Kipman, demonstraram grande entusiasmo.
     "Quando o Brasil enviou suas forças de paz ao Haiti em 2004, queria mostrar um novo paradigma em operações de paz, voltado para o desenvolvimento e a reconstrução do país, suas instituições e sociedade democrática. Em cinco anos vemos que isso se materializou. Fizemos diferença no país. A Minustah é reconhecidamente a mais exitosa operação de paz", afirmou o embaixador.             

     Segundo Kipman, a presença militar brasileira é a que mais chama atenção na pacificação da capital Porto Príncipe, causando admiração e até inveja. "Querem saber qual o segredo para a integração das nossas tropas com as pessoas nas ruas. Não é segredo, é a índole do brasileiro, que não é adquirida em centro de treinamento", disse, acrescentando que a Minustah é confundida pela população haitiana com o Brasil.
     O embaixador destacou a atuação brasileira em áreas como a cooperação técnica e cultural, e não somente no patrulhamento ostensivo e assistência humanitária. "Na área cultural, há aulas de música, dança e capoeira. Na área de cooperação técnica, existem projetos como o de distribuição de água potável", exemplificou.

Kipman contou que as atividades civis são apoiadas pelos militares. "As doações de alimentos e outros itens não chegariam aos locais de destino sem esse apoio", garantiu.
     A embaixatriz Roseana foi ovacionada ao final da sua exposição, na qual mostrou fotos e contou histórias sobre o sofrimento do povo e a ação dos militares brasileiros para amenizá-lo. Regularmente, ela acompanha missões de ajuda humanitária apoiadas por militares. “No Haiti há nove milhões de pessoas na miséria. O país é para gente grande, que tem coragem de olhar para o lado”, descreveu.
     Roseana contou que nas missões de entrega de alimentos, só as mulheres podem entrar nas filas, para evitar violência. Ao fim da distribuição, os militares as escoltam de volta para casa. “As Forças Armadas atuam com jeitinho brasileiro e profissionalismo ao mesmo tempo. Os militares se entendem com as crianças em língua de gente, olho no olho. Ficam felizes por fazer algo por alguém. Tratamos como gente e somos tratados como gente”, contou.
     Entre as ações de segurança e desenvolvimento efetuadas no país, ela destacou a inauguração da primeira delegacia da mulher, dentro do Forte Naval, e o trabalho de desobstrução de canais para o escoamento da água da chuva. “Este ano não teve enchente por causa do trabalho do ano passado. Fomos em paz e sairemos em paz quando for a hora”, afirmou.
     O acadêmico Clóvis Brigagão, da Universidade Cândido Mendes, também valorizou as qualidades culturais dos brasileiros para justificar o sucesso da operação de paz no Haiti. “A missão brasileira se destaca por fatores como grau de profissionalismo, espírito de solidariedade, capacidade de adaptação, confiança, bom humor, facilidade de entrosamento em ambiente multinacional, boa vontade para resolver problemas e vestir a camisa, horizontalidade – vê o outro como igual - e flexibilidade”, listou.
     Na opinião do professor, que elogiou o trabalho do Viva Rio no país, a participação civil nas operações de paz deveria aumentar, com mais atuação de universidades, além dos técnicos. “Quando uma missão de paz termina, há o peacebuilding – a construção de políticas públicas. Mas há quase nada de presença brasileira nesse campo, em áreas como administração e justiça”, lamentou.

Segurança da população

     Um dos convidados internacionais no evento, o professor Don Hubert, da Universidade de Ottawa, no Canadá, expôs algumas conclusões de uma pesquisa que avaliou dez anos de prática de missões de paz. Segundo Hubert, há pouca atenção à segurança da população. “Se um número alto de civis morre numa missão, ela fracassou”, resumiu.
     De acordo com o pesquisador, existem duas ideias fundamentais hoje: a de que os civis, inocentes, têm que ser preservados em situações de guerra, porém ela não tem implementação prática; e a noção de intervenção humanitária, de que quando a situação do povo é tão ruim, porque o seu próprio governo o está matando, outros países têm que intervir.

     Hubert lembrou que um documento de 2005 da ONU determina que quando um Estado falha em proteger sua população, os outros podem agir. Mas, segundo ele, essa ideia é muito polêmica, pois fica a dúvida sobre de quem seria a responsabilidade de dar segurança aos civis. “A manutenção da paz (peacekeeping) é um fenômeno – nunca houve tanta. Mas onde ela fracassa é na proteção humanitária, vide Kosovo e o Timor Leste”, disse.
     O professor acrescentou que as missões podem proteger os civis usando qualquer recurso necessário, inclusive a força letal. Para ele, o sucesso de uma operação de paz depende da proteção da população local. “Se a população local não se sente segura, não é possível ter sucesso. É um desafio e espero que o Brasil contribua para isso, e não só para a Minustah, mas para todas as forças de paz”, concluiu.
     De acordo com a conselheira Gilda Motta Santos Neves, chefe da Divisão das Nações Unidas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o uso da força é aceito em casos de autodefesa, obstáculos ao cumprimento da missão e proteção aos civis, desde que com a imprescindível autorização do Conselho de Segurança da ONU. “Sem autorização, o uso da força é ilegal. A única exceção é legítima defesa”, explica.
     Segundo Gilda, não pode haver segurança sem desenvolvimento, e é essa ideia que o Brasil leva à ONU. “É um ponto central da política externa brasileira em missões de paz. A Minustah prevê um plano de desenvolvimento feito em conjunto com autoridades e a sociedade local. A idéia é sair de lá com a situação estabilizada, para que não seja necessário o envio de outra missão de paz”, afirma. Para a conselheira, uma saída precipitada levaria à deterioração rápida.

No Haiti como no Rio

Fotos: Marina Lemle
Tenda utilizada para atendimento médico durante missões de operações de paz

      O diretor-executivo do Viva Rio, o antropólogo Rubem César Fernandes, explicou a razão da atuação da entidade no Haiti. “O Haiti parece o Rio, com desigualdades, violência armada em meio urbano e história cultural semelhante. Só que o Brasil tem os problemas e as soluções. O aprendizado do Rio que se aplica lá é o de se trabalhar dentro das comunidades. A sede do Viva Rio no Haiti é dentro de Bel-Air. A proximidade cria relações de confiança”, disse.
    De acordo com Fernandes, é necessário um trabalho de integração de segurança e desenvolvimento. Ele contou que em seis meses conseguiu-se reunir na mesma mesa elementos desarmados – porque os armados já haviam sido reprimidos pelas Forças de Paz – de 15 bases diferentes. Essas lideranças, junto com a Polícia Nacional e as Forças Armadas,

      produziram um acordo de paz para a redução das mortes por homicídio. “A cada mês sem mortes por conflito, são realizados sorteios que dão bolsas de estudos e uma festa com blocos de rua”, contou.
     confiança”, disse. De acordo com Fernandes, é necessário um trabalho de integração de segurança e desenvolvimento. Ele contou que em seis meses conseguiu-se reunir na mesma mesa elementos desarmados – porque os armados já haviam sido reprimidos pelas Forças de Paz – de 15 bases diferentes. Essas lideranças, junto com a Polícia Nacional e as Forças Armadas, produziram um acordo de paz para a redução das mortes por homicídio. “A cada mês sem mortes por conflito, são realizados sorteios que dão bolsas de estudos e uma festa com blocos de rua”, contou.
     Para o antropólogo, a expressão “braço forte, mão amiga” que designa as Forças Armadas é muito feliz. “O problema aparece quando só as armas dialogam. No Rio ainda não aprendemos a dialogar sem armas”, reconheceu. Questionado sobre experiências negativas de atuação militar no Haiti, Fernandes confirmou que já ocorreram, mas enfatizou que, ao contrário do que ocorre no Rio, o controle externo é muito grande e evita que os militares “saiam da linha”.
     Representante da Cruz Vermelha no seminário, Silvia Backes disse que o Haiti e o Rio não estão em guerra, mas têm uma situação humanitária às vezes pior que em situações de guerra, e a tendência é piorar. Ela explicou que a entidade, que trabalha em sete comunidades no Rio, além de atuar no Haiti, dialoga com todos os grupos para que a ajuda seja aceita. Segundo Silvia, a Cruz Vermelha Segue os princípios da independência, da neutralidade e da imparcialidade, prestando socorro não importa a quem.
     “Atuamos em favor da vítima segundo suas necessidades. Não existem vítimas boas ou vítimas ruins, o que não significa que estejamos de algum lado, senão do lado da vida”, disse. Ela explicou que, além da ajudar por meio da distribuição de remédios e alimentos, uma missão humanitária também tem a função de proteger as populações do emprego da força excessiva e da violência. E destacou que a Cruz Vermelha não permite armas nos veículos.
     Trabalhamos junto com as Forças Armadas mas separados, separados mas juntos, de acordo com a situação. A ajuda humanitária não pode ser imposta. Se entramos uma vez com o Batalhão de Choque, não entraremos nunca mais”, resumiu.

No Haiti como no Rio

      O Corpo de Fuzileiros Navais está presente no Haiti desde a abertura da missão das Nações Unidas no país em 2004. O 12º contingente embarcará em janeiro de 2010. De acordo com o comandante geral do Corpo de Fuzileiros Navais, almirante-de-esquadra Álvaro Augusto Dias Monteiro, a participação dos fuzileiros em missões de paz começou em 1965, na fronteira entre a Índia e o Paquistão e também na República Dominicana.
     Ele conta que, na década de 1990, atuaram em Angola, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Ex-Iugoslávia, Macedônia, Moçambique, Nicarágua, na fronteira de Uganda e Ruanda, na fronteira entre Peru e Equador, e na remoção de minas em diversos países da América Central. Já nos anos 2000, os fuzileiros participaram de missões na Colômbia, Costa do Marfim, Etiópia, Haiti, Libéria, Nepal, República Centro Africana, Saara Ocidental, Sudão e Timor Leste.
     “Hoje, mais de 45% dos oficiais fuzileiros navais possuem experiência em operações de paz e cada Batalhão de Infantaria já participou do ciclo completo de preparação e do envio de tropas para o Haiti por pelo menos três vezes. É este relevante cabedal de conhecimentos e de experiências profissionais valiosas que adquirimos ao longo de mais de quatro décadas que pretendemos compartilhar com o meio acadêmico, para que a discussão de soluções modernas, criativas e eficientes habilite-nos a servir cada vez mais e melhor”, disse o comandante na abertura do seminário.
     Representante da Cruz Vermelha no seminário, Silvia Backes disse que o Haiti e o Rio não estão em guerra, mas têm uma situação humanitária às vezes pior que em situações de guerra, e a tendência é piorar. Ela explicou que a entidade, que trabalha em sete comunidades no Rio, além de atuar no Haiti, dialoga com todos os grupos para que a ajuda seja aceita. Segundo Silvia, a Cruz Vermelha Segue os princípios da independência, da neutralidade e da imparcialidade, prestando socorro não importa a quem.
     “Atuamos em favor da vítima segundo suas necessidades. Não existem vítimas boas ou vítimas ruins, o que não significa que estejamos de algum lado, senão do lado da vida”, disse. Ela explicou que, além da ajudar por meio da distribuição de remédios e alimentos, uma missão humanitária também tem a função de proteger as populações do emprego da força excessiva e da violência. E destacou que a Cruz Vermelha não permite armas nos veículos.
     Trabalhamos junto com as Forças Armadas mas separados, separados mas juntos, de acordo com a situação. A ajuda humanitária não pode ser imposta. Se entramos uma vez com o Batalhão de Choque, não entraremos nunca mais”, resumiu.

 
 
 
Fonte: http://www.comunidadesegura.org/pt-br/MATERIA-Um-jeitinho-brasileiro-de-fazer-paz
 
MARINHA DO BRASIL - CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS
Copyright © 2007 - CGCFN - Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais
Fortaleza de São José - s/nº -Ilha das Cobras - Centro - Rio de Janeiro/RJ - CEP 21911-000