CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS NO BRASIL
200 anos da Tomada de Caiena - Batismo de Fogo dos Fuzileiros Navais
Ainda em 1808, pouco depois da chegada ao Brasil, os Fuzileiros-Marinheiros, como eram chamados à época, se integraram à expedição que rumava para a Guiana Francesa.
Devido à invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas, D. João determinou a invasão de Caiena, sede da administração francesa na Guiana.
Em 2 de maio de 1808, foi divulgado às potências da Europa, e ao mundo inteiro, o Manifesto do Príncipe Regente declarando guerra à França:
“Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor, no seio do novo Império, que veio criar na América Meridional, levanta a sua voz, e expõe com energia e dignidade os sacrifícios, que, por muitos anos, houvera feito para conservar a tranqüilidade do seu povo comprando por muitos milhões de cruzados uma neutralidade pacífica, que o pérfido Napoleão, Imperador dos franceses, por vezes vendeu, e que logo ele mesmo quebrava, para ter o pretexto de nova negociação: patenteia as traições, as intrigas, e infames manobras, que o mesmo Imperador maquinou por meio dos seus enviados, e agentes, a fim de perturbar a nação portuguesa, e abalar a estabilidade do trono: enfim depois de lembrar a toda a Europa a execranda perfídia, com que o dito Imperador invadiu o Reino de Portugal e o ocupou, declara Sua Alteza Real guerra a Napoleão e aos franceses, permite aos seus vassalos da Europa, do Brasil, e Domínios Ultramarinos o repelir, por mar, e por terra, os seus inimigos e fazer-lhes guerra. Declara Sua Alteza nulos, e de nenhum efeito todos os tratados, que o Imperador dos franceses o obrigou a assinar, e que jamais deporá as armas, senão de acordo com o seu antigo e fiel aliado, Sua Majestade Britânica, e que não consente, nem consentirá em caso algum da cessão do Reino de Portugal, que forma a mais antiga parte da herança, e dos direitos da sua real família. Este manifesto no qual tanto reluz a verdade, e a justiça da causa do Príncipe Regente Nosso Senhor, foi bem recebido na Europa, e com especialidade pelos ingleses, e abriu os olhos a muita gente, a quem Napoleão havia fascinado com as suas imposturas e deslealdade.” 3 |
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Assim, a primeira missão de combate dos Fuzileiros-Marinheiros no Brasil foi a invasão da Guiana Francesa, ordenada em represália à invasão de Portugal.
Em outro decreto, de 10 de junho, ordenou D. João que “por mar, e por terra se lhes façam todas as hostilidades”, autorizando o corso e os armamentos que seus vassalos quisessem no intuito de propor-se contra a França.
Mas antes, em 13 de maio de 1808, o Príncipe Regente, por meio de decretos e alvarás, regulou o corpo da Brigada Real da Marinha e o soldo que haveriam de receber os membros dessa instituição, além de criar a Contadoria Real da Marinha para o expediente do corpo militar, a Biblioteca da Academia Naval e dar outras providências. 4
O governador do Pará, recebeu, em 22 de julho de 1808, ordem régia para fazer marchar rapidamente, e não antes de receber de Pernambuco as tropas de infantaria e artilharia e as forças de mar e terra, a fim de tomar posse solene e estabelecer um destacamento à margem direita do Oiapoque, de modo a promover a reintegração dos justos limites da Capitania do Pará.
O governador organizou, com recursos escassos, uma Força Naval com embarcações de pequeno porte, conduzindo cerca de trezentos homens para o desembarque na Guiana Francesa. A partida aconteceu em outubro.
O Corpo de Fuzileiros-Marinheiros embarcou na esquadra em 5 de novembro de 1808 para a invasão à Guiana Francesa. No dia 13 de dezembro, com escalas na Bahia, no Maranhão e em Belém do Pará, chegou ao Cabo Norte a esquadra procedente do Rio de Janeiro, composta da fragata Confidence, dos brigues Voador e Infante D. Pedro, da escuna General Magalhães, e dos cúteres Vingança e Leão.
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Logo em seguida, começou o ataque aos pequenos fortes situados às margens do rio Aproak, que impediam o prosseguimento da missão. Em 7 de janeiro de 1809, foram conquistados os dois últimos fortes, o que permitiu o desembarque da tropa que estava nos navios nas praias de Caiena, manobra que os ingleses chamam “littoral war”. O destacamento ocupou o território da Guiana, cooperando ativamente nos combates travados até a vitória em 12 de janeiro de 1809 e garantindo para o Brasil parte do atual estado do Amapá. 5 |
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O ofício de 29 de janeiro de 1809, do governador da Capitania do Pará, dava:
“ao Príncipe Regente a certeza de que a colônia Francesa de Caiena se havia rendido por capitulação ao seu soberano domínio, depois de vários ataques. (...) O comandante dessa expedição, o Tenente-Coronel Manoel Marques, havendo-se senhoreado em dois dias de todos os pontos fortificados, que da parte do continente defendiam a passagem para a ilha de Caiena, em virtude da capitulação, que os franceses ofereceram, e que foi assinada aos 12 de janeiro, entrou na praça aos 14, e nela ancorou a Real Bandeira Portuguesa, solenizando este ato com uma salva de vinte e um tiros de artilharia.
Segundo a capitulação, a guarnição francesa evacuou a praça, saindo com todas as honras de guerra, devendo ser mandada para a França em embarcações portuguesas. (...) Grande foi o contentamento nesta Corte pelo feliz sucesso das nossas armas na conquista desta parte da Guiana”. 6 |
Como prêmio, D. João mandou cunhar uma medalha de prata comemorativa da Tomada de Caiena, em cujo anverso estava sua figura em perfil coroada de louros e no reverso a data de 14 de janeiro de 1809, com a inscrição: Caiena tomada aos franceses. 7
A ocupação da Guiana Francesa tornou-se importante, pois de lá foi enviada uma preciosa coleção de plantas frutíferas e de especiarias para a Corte. Muitas dessas plantas ficaram no Pará e em Pernambuco, e grande número delas chegou ao Rio de Janeiro a bordo do brigue Vulcano; em seguida, o lote foi remetido para o Real Jardim da Lagoa Rodrigo de Freitas. Juntamente com essa remessa de plantas, vieram canas sacarinas de Caiena, que trariam grandes vantagens à cultura, ao fabrico do açúcar e à destilação das aguardentes. Além disso, a ocupação contribuiu para a fixação da fronteira brasileira, pois, quando da sua devolução, em 1817, ficaram tacitamente estabelecidos os limites do Oiapoque, tornados definitivos, posteriormente, pela atuação do Barão do Rio Branco, que teve o respaldo de argumentos histórico-cartográficos.
Essa missão foi o batismo de fogo dos Fuzileiros Navais. A campanha em Caiena evidenciou que os componentes da Brigada possuíam um diferencial: a vocação anfíbia. Eram destemidos combatentes de mar e de terra.
Ao retornarem, após a Campanha da Guiana, os Fuzileiros-Marinheiros foram aquartelados em 21 de março de 1809, por determinação do Ministro da Marinha, D. João Rodrigues Sá e Menezes, o Conde de Anadia, na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, ocupando os velhos edifícios em que estavam instaladas as prisões-masmorras. A Fortaleza, a partir de então, passou a ser a sede do Corpo de Fuzileiros Navais no Brasil. 8
3 SANTOS, Luiz Gonçalves dos. Memórias para servir à História do Reino do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Zélio Valverde, 1943. v.2. ed.1. p.250.
4 Idem, p.257.
5 LEIVAS, Luís Cláudio Pereira; GOYCOCHÊA, Luís Felipe de Castilhos. A Conquista de Caiena. In: História Naval Brasileira. v.2. t..II. p.411.
6 Idem, p.299.
7 Disponível em: <http://www.tribunademinas.com.br/especiais/museu/tp61.htm >. Acessado em 25 de agosto de 2008. Acervo do Museu Mariano Procópio.
8 MARQUES, Antero José. Livro Histórico do Corpo de Fuzileiros Navais. Rio de Janeiro: Imprensa Naval. ed.2. p.121.
REFERÊNCIA
BIELINSKI, Alba Carneiro. Os Fuzileiros Navais na História do Brasil. Rio de Janeiro: Agência 2ª Comunicação, 2008.p.17-20.